Eu te amo

(Francesco Procat)

Chorei. Lá,chorei, com as rosas em uma mão e lírios em outras, as duas em um sombrio encontro, apoiadas em meu ventre. A luz do sol refletida nos azulejos não era suficiente para acabar com a escuridão daquele dia.
Estava olhando a mesma foto e derramando lágrimas por mais de um quarto de hora, e não me ocorrera sair dali. Simplesmente não queria ir para lugar algum. Nada sem ela me parecia uma opção.
Ela. E minha dor apenas se estendia a cada minuto. O sol me perturbava, servindo de meu amigo em uma tarde fria de inverno. O frio e o sol. E as lágrimas quentes borravam-me a visão. Não havia nada que valesse a pena ser visto, pois seu sorriso agora era uma recordação, gravado friamente nas fotografias, pois a memória é falha. Cedo ou tarde, ele se apagaria.
O peso de tudo o que eu disse, do que eu não disse, agora despencava sobre meus ombros com uma violência crua, me deitava no chão e pressionava cada um dos meus órgãos.
E não importava o quanto eu tentava respirar, meus pulmões pareciam entorpecidos.
E meus braços nada ousavam fazer, senão segurar as rosas e os lírios, enquanto a garganta, fechada pelo desespero,  tentava insistentemente engolir o choro incessante.
E deixei as lágrimas saírem a seu gosto. Não me importava. Que me vissem, mas me vissem como eu realmente estava — em caos, em cacos. Não precisava fingir um sorriso, já que o colo dela não mais me acolheria.
E aquele abraço não mais aqueceria meu coração quando o mundo o despedaçasse. E ela, que me acolhia nos momentos de tristeza, causara a maior delas. O vazio mais vazio.
Não era dor, era caos. Era o nada, o silêncio, o negro. O nada tomara o lugar do amor, que por todo meu ser habitara.
E o calor de meu peito de nada mais era válido. Não mais lhe beijaria a testa.
E eu gritava por dentro, um grito que ecoava no vácuo de meu corpo.
— EU TE AMO!
E era tudo o que existia em mim. O eco.
A voz.
E depois, o silêncio.
Sequer as cores fariam sentido, pois o único vermelho que eu queria ver era o vermelho de seus lábios pintados. O verde de seus olhos brilhantes e o negro de seus cabelos esvoaçantes.
Não era dor. Era o nada, pois a dor seria suportável, enquanto o nada continuaria a ser nada. Inércia. E eu despencava em mim, fundo, mais fundo.
Porque somos universo. E meu universo era o nada.
O amarelo dos lírios agredia-me os olhos.
O cheiro das rosas rasgava-me as narinas.
E desabei em um som selvagem, tomado de raiva. Era tudo o que eu era capaz de sentir. Ódio, porque o amor se esvaíra como a fagulha de sua vida.
E pisei. Pisei nas flores, para que elas não decorassem seu túmulo. Para que a beleza delas não ofuscasse a foto apagada da minúscula capela.
Pisei nas flores para deixar teu túmulo vazio!
Como tu deixastes meu coração ao partir.
E nunca mais pronunciei o nome de minha dor. O nome de meu único e verdadeiro amor.
Nunca mais pronunciei palavra, porque nenhuma palavra fazia sentido, quando a mais importante perdera o seu.
Uma palavra, uma ausência. O nome de minha saudade.
De minha descrença, de minha dor.
O nome que a morte levara para longe.
O qual gritei antes que meus pulmões desistissem.
E levou minhas últimas forças, pois despenquei de joelhos nas pétalas das flores.
Despenquei de joelhos em dores.
Das letras, amores.
E o teu sorriso a me assombrar.
— Mãe.
E nunca mais quis levantar.


4 Comentários

  1. Adorei o conto, quando vai lançar o próximo?
    Abraços!
    http://umlivroabertoig.blogspot.com.br/

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    1. Oii! Qualquer madrugada dessas. Se você gostou do conto, me adiciona no Wattpad, vai que você encontra por lá algo que te agrade?
      https://www.wattpad.com/user/heyfrancesco
      Obrigado por comentar >.<
      abraçooo

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  2. Excelente crônica! Gosto de seu tipo de escrita, ela me motiva a querer ler mais um pouco, mesmo após o fim. Lembro-me de quando mandaste a crônica de O VIGÁRIO, que perfeição! Uma das mais llindas que já li. Parabéns.

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    1. AAAA, vc lembra. Acho que vou postar aqui! Obrigado por ler <3

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Ola divirta-se fica a vontade sua opinião é muito importante para nossa equipe
bjks até a proxima. *-*

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